quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A POEIRA QUE HABITA EM MIM

Esses dias recebi uma faxineira em casa. Homem morando só, já viu né?! A contratada se tratava de uma senhora com uma ternura de mãe, mas que em poucos minutos colocou tudo para cima, arrastando móveis, retirando tapetes e até quadros das paredes.

Dona Preta (como pediu para ser chamada), agia silenciosamente, vagando de cômodo em cômodo, enquanto eu permanecia no quarto, lendo.

Com apenas meia hora de sua estadia, ela revirou tudo. Nem parecia que estava ali para arrumar. Mal podia crer que estava tudo entulhado, revirado. 
Eu não fazia ideia do plano de ação da senhorinha. Imaginei que ela iria fazer como eu: varrer ali, lavar acolá. Mas não, Dona Preta estava obstinada.

Durante algumas horas ela estabeleceu o caos dentro de casa; Lembrei-me do dia da mudança onde eu vi tanta coisa fora do lugar. Até eu estava sem jeito de ficar ali. Mas depois, pouco a pouco, os ambientes foram tomando forma, com algumas mudanças bem sutis mas que fizeram toda a diferença. 

Eu não tinha noção do quanto minha casa estava empoeirada e largada até ver ela arrumada.

A faxina foi uma alegoria perfeita para me fazer pensar sobre o estado em que nos encontramos emocionalmente na maioria das vezes, uma vez que ao contrário das aprendizagens mais comuns, nunca tivemos aulas sobre como administrar nossas emoções.

Quando sofremos um dissabor, uma injustiça, uma leviandade, agimos instintivamente: Ou encaramos e devolvemos, ou absorvemos e nos retiramos, numa expressão plena do mecanismo cerebral conhecido por luta ou fuga, já citado por mim aqui.

Para qualquer que seja a nossa reação, há de ficar um traço, um resquício do episódio que vez ou outra, acomodamos  em baixo do tapete. Pode ser uma vergonha, uma tristeza, uma revolta ou amargura. Temos ai a poeira que incomoda. Mas por conseguirmos habitar a casa empoeirada, nós pouco ou nada fazemos.

Porém há sempre um limiar. Sabe aquelas situações que parecem que se repetem? A insistência do "destino" em lhe mandar pessoas com os mesmos defeitos para conviver? Pois bem, Freud chama de compulsão a repetição a experiência do sujeito ao repetir situações que lhe aflijam sem reconhecer sua própria contribuição para tal, uma vez que traz consigo os mesmos sintomas  já manifestos em eventos passados, mas que sempre reaparecem na participação do outro.

Então chega uma hora que a gente se cansa de ver a poeira e decide fazer alguma coisa. Por nós mesmos, um paninho úmido já estaria de bom tamanho, mas quando delegamos esta função à quem entende, somos surpreendidos pelo que se dá.

A bagunça tende a ficar pior, pelo menos num primeiro momento. Daí o desconforto. Falar de si até onde se sabe é bom... Agora experimente falar do que você sente, deixando vir a mente, sem, contudo adiantar-se no discurso de forma a tentar falar o que pensa que o outro quer ouvir. É ruim, a gente fala coisas que nunca pensou que diria, e o pior: constata que a casa pode ficar ainda mais revirada.

Mas quem sabe lidar com a situação, até mesmo em meio ao caos, saberá por onde iniciar a reorganização.
A terapia é isso, é se lançar frente ao desconhecido, dando total liberdade a si mesmo para vasculhar até o os cômodos menos habitados e retirar deles as maiores sujeiras.

Organizar a vida é permitir-se perder a noção de controle e deixar surgir um princípio em meio a um nada.

Administrar as emoções é entrar em contato com as poeiras mais inóspitas que habitam nossa casa, nem que para isso seja necessário remover muita coisa do lugar. É encontrar sentido na mudança que surge com a organização.

Talvez a casa fique estranha após a faxina, mas devo dizer, que estranhamento bom...

Para arrumação ocorrer é necessário delegar autonomia ao outro, caso a gente queira de fato ver as coisas de forma diferente. Isso não significa que você não possa fazer a faxina sozinho, mas que risco de se perder em meio aos entulhos ou desistir por cansaço será bem menor.

Faxine sua casa pois não há nada tão sujo que não possa piorar e da mesma forma não há nada tão limpo que não possa tornar-se melhor.
Só mais uma coisa: casa limpa atrai bons hábitos!

"Limpai as mãos, pecadores; e, vós que sois de ânimo duplo, purificai os corações."
(Tiago 4:8)

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